SOBRE COMO APRENDI A AMAR OS LIVROS

Lembro-me dos livrinhos amarelos. Era uma coleção de livros grandes e fininhos que minha tia emprestou para lerem para mim quando era pequena. O problema é que meus pais não gostavam (e ainda não gostam) de ler, então a maioria das vezes eu pegava os livros só para olhar as figuras e com isso já me divertia. Algumas vezes, porém, um dos meus irmãos se dispunha a ler algumas histórias pra mim e lembro-me de sempre ficar totalmente encantada ouvindo o que ia acontecer, mesmo que, por já ter visto muito as ilustrações, eu soubesse como terminaria. Algumas dessas histórias nunca foram lidas para mim, então mantenho na lembrança apenas as figuras e a narrativa que elas construíam.

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Os livros amarelos foram devolvidos antes que eu aprendesse a ler. Tinham algumas poucos obras em minha casa; livros infantis e infanto-juvenis que a escola dos meus irmãos pedia para comprar e acabavam ficando esquecidos no guarda-roupa. Quando conseguia tirar sentido das palavras, encontrei esses livros e escolhi para minha primeira leitura O Reizinho Mandão, da Ruth Rocha, talvez por ser o menor ou pela gravura de um menino rei na capa. A história era contada em menos de cinquenta páginas e com várias ilustrações. Perdi as contas de quantas vezes li e reli aquele livrinho que ensinava a não sermos mandões e egoístas.

Lembro vagamente das leituras feitas nos anos que se seguiram. A escola que frequentava nessa época (primeira, segunda série) tinha uma biblioteca bastante rica em livros e a professora nos levava lá para escolhermos um por semana para levarmos para casa e ler. Mas foi na terceira série – e em uma escola diferente – que um dos momentos mais marcantes da minha vida como leitora aconteceu.

Alguns alunos da minha sala não sabiam ler. Eram poucos, talvez cinco ou seis, mas eles ainda não tinham aprendido e a professora não queria deixá-los para trás nas leituras feitas pelo resto da turma. Então, em algumas aulas – uma vez por semana talvez – ela distribuía o livro escolhido (geralmente livros da Ruth Rocha) e pedia para alguns dos alunos que já sabiam ler, lerem a história com aqueles que ainda não sabia – discretamente, procurando não constranger os colegas. Eu fui uma das escolhidas e devia fazer minha leitura em voz alta para que esse meu colega também acompanhasse. A professora nos liberava para passarmos meia hora no pátio, para lermos no lugar que achássemos melhor e me lembro de sempre sentar no mesmo banco, com o coleguinha do meu lado, e ler a história. Ele era muito tímido e quieto, mas sempre parecia interessado no que aconteceria no enredo. A curiosidade dele acabava me deixando também mais empolgada com a leitura. Acho que lá pela metade do ano ou algo assim ele foi conseguindo ler sozinho e já não precisava mais da minha ajuda, mas nunca me esqueço desses meses que líamos juntos, interessados e viajando naquelas histórias. Falta-me memória para lembrar o nome ou o rosto desse colega, o da professora Dulce, porém, nunca esqueci.

Depois disso eu passei a ler mais e explorar aqueles livros esquecidos dos meus irmãos. Não eram muitos, mas na época satisfaziam meu desejo por leitura. Um deles ficou gravado na minha memória: A Hora da Verdade, do Pedro Bandeira. Foi o primeiro livro que li desse autor e logo se tornou uma das minhas histórias favoritas. Falava sobre amizade, traição e vários outros elementos que eu encontrava na televisão quando assistia programas jovens, como Malhação. Esse livro faz constantemente referência a Otelo e Dom Casmurro, mas, apesar de me interessar pelos comentários que lia nas notas sobre essas obras, na época não cheguei a procurá-las para ler (talvez subestimando a mim mesma e achando que era muito jovem para entendê-las). Acho interessante um fato sobre minha vida que se conecta com esse livro: as personagens faziam parte do time de vôlei do colégio e esse esporte estava sempre presente na narrativa; hoje, sou apaixonada por vôlei, não sei se já o era quando li e por isso me interessei tanto pela história ou se passei a prestar mais atenção nos jogos depois de ler. Acho que nunca vou saber com certeza.

Tive a sorte de ter sempre tido ótimas professoras de língua portuguesa e que sempre incentivaram a leitura. Lembro que na sexta ou sétima série li o que considerei na época o melhor livro da minha vida. Era uma adaptação (o que naquele tempo talvez eu nem soubesse) feita pelo Walcyr Carrasco do romance Os Miseráveis, do Victor Hugo. A capa vermelha com o desenho de duas pernas não me chamava muita atenção, por isso acabei demorando para começar a leitura (desde sempre procrastinadora), mas, como teríamos uma pequena prova sobre o livro, uma ou duas semanas antes, comecei a ler e não consegui mais parar. Eu colocava um colchonete no canto do meu quarto e ficava o dia inteiro lá, lendo, amando cada vez mais as personagens, aprendendo com elas e me emocionando com o caminho que a história ia seguindo. Acho que essa foi a primeira vez que chorei lendo um livro.

Como disse, não tinha muito livros na minha casa, e a essa altura já tinha lido e relido aquele pequeno estoque dos livros (agora já não mais) esquecidos. A biblioteca da escola  que eu frequentava nessa época não tinha tantos títulos ou, por algum motivo que nunca compreendi, não podia levá-los comigo para casa. Acabei lendo menos por um tempo, pela falta de acesso. Bem, lendo menos obras publicadas, porque essa foi a época que comecei a ler mais e mais, criando um hábito de sempre ter algo para ler. Uma das minhas amigas escrevia (e ainda escreve) histórias em cadernos. Ela era rápida na escrita e sempre me deixava ler seus originais. Talvez eu tenha lido vinte ou trinta de suas histórias nessa época? Não sei ao certo, mas era empolgante poder passar os intervalos conversando sobre as personagens que ela criara e eu lera. Foi também a época que comecei a escrever, mas isso é outra história.

Então veio o Ensino Médio e a primeira vez que li aquilo que conhecemos como clássico. Antes de nos instruir às leituras, a professora de literatura pediu que formássemos duplas e que escolhêssemos um livro que gostássemos muito para contar o seu enredo para sala. Lembro que emprestei A Hora da Verdade para minha amiga e foi esse livro que apresentamos. Foi interessante e divertido ver meus colegas contando as histórias de seus livros favoritos, sempre por meio de um discurso bastante apaixonado e emocionante. Acredito que tenha sido esse o intuito da professora, fazer com que todos tomassem consciência que literatura também é prazer. Depois de todos apresentarem seus livros, deveríamos ler Dom Casmurro. Minha tia (coincidentemente ou não, a mesma tia dos livros amarelos) me emprestou o exemplar dela, bem antigo e com folhas caindo, e eu devorei a história! Na época, talvez, eu não compreendia alguns vocábulos, mas a história ia me interessando tanto que não me importava muito com isso. E ainda conseguia reconhecer ali as referências que eram feitas em A Hora da Verdade, o que me deixava mais empolgada ainda. Gostei também das aulas sobre a obra, pois a professora sempre falava de maneira apaixonada sobre o livro, não fazia aquilo parecer distante e chato, como sei que muitas vezes acontece.

Depois disso comecei a ler de tudo. Comecei a pedir livros emprestados, ganhar livros no meu aniversário, ler pelo computador e tomei coragem para pedir aos meus pais que comprassem livros para mim de vez em quando. Não que tivesse medo deles brigarem ou negarem, meus pais sempre me incentivaram em tudo, mas antigamente eu achava que livros não eram importantes o suficiente para se gastar dinheiro adquirindo-os (ainda mais sabendo a realidade financeira em que vivia), então acabava nem tomando a iniciativa de pedir, embora (ou justamente porque) sabia que meus pais comprariam sem problema nenhum.

Então, quando fiz 17 anos, meu irmão me deu um dos melhores presentes que já ganhei. Tinha descoberto finalmente (e um pouco tarde) que aquele livro que li quando era mais nova era apenas uma adaptação e estava louca para poder lê-lo inteiro. Devo ter falado bastante sobre isso, pois meu irmão lembrou. Pouco depois do meu aniversário, encontrei a edição com texto integral de Os Miseráveis no meu criado-mudo e quase explodi de felicidade. Uma parte de mim queria começar logo a ler o livro, a outra, porém, olhava para aquele livro enorme e tinha medo de não gostar tanto da leitura, medo de tirar aquela história do pedestal no qual a tinha colocado. Demorei alguns meses para tomar coragem, mas logo que comecei a ler, mais uma vez, não conseguia parar. Ia lembrando-me de algumas passagens enquanto lia e eram despertados em mim os mesmos sentimentos da época que li a adaptação. Dessa vez a contextualização política e história feita por Victor Hugo me interessaram imensamente e ia aprendendo com Jean Valjean e com os Amigos do ABC a ver o mundo de uma maneira diferente. Considero até hoje esse o meu livro favorito.

O interesse pela literatura só foi aumentando. Como não tinha muitas pessoas na minha vida que gostassem de ler, procurei na internet maneiras de me aproximar mais desse gosto. Lia blogs, entrei em redes sociais voltadas para leitores, descobri os canais literários dos chamados booktubers e – talvez uma das coisas mais importantes – há quatro anos, comecei um clube do livro online com umas amigas. A interação entre diversos jovens de diversas partes do Brasil e com gosto literários diferenciados foi (e ainda é) enriquecedora; pude falar sobre livros com essas pessoas tão apaixonadas quanto eu por literatura e durante esses anos, uma forte amizade criou-se entre nós.

Todos os fatores citados me influenciaram a hoje estar cursando Letras. A partir da hora que descobri que podia ir para faculdade estudar literatura, não via outro caminho para mim. Os livros me trouxeram ao agora e formaram a pessoa que sou hoje. Algumas vezes não vejo com muita clareza o que será do meu futuro, mas a literatura é uma certeza que sempre vejo de alguma forma presente quando tento espiar o horizonte.

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2 comentários sobre “SOBRE COMO APRENDI A AMAR OS LIVROS

  1. Larissa 26 de agosto de 2015 / 20:43

    MIGA Q TEXTO MARAVILHOSO ♡ Nossa, muito bom. ♡♡♡

    • Solaine Chioro 26 de agosto de 2015 / 21:08

      Obrigada, miga. ♡

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