SOBRE UMA GAROTA DESCABELADA

Minha mãe não sabia pentear meu cabelo. Eu amo muito essa mulher, mas é, ela não sabia como lidar com o meu cabelo. Isso não é culpa dela, claro, nós duas temos cabelos bem diferentes e ela fazia o melhor que podia. Ela segurava minha cabeça e penteava meu cabelo de cima pra baixo, sem desembaraçar as pontas antes e doía horrores. A verdade é que eu mesma demorei para aprender a me pentear, porque só com o tempo fui percebendo que não precisava fazer como minha mãe fazia ou como via outras garotas (lisas) fazerem. Demorou, mas eu aprendi a lidar. Não, é muito mais que isso: eu aprendi a amar meu cabelo.

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Pode parecer bem estúpido fazer um texto desses sobre cabelo, mas cabelo não é só cabelo e acho que sabemos bem disso, não é? Mas vamos lá, hoje quero contar a história da garotinha cacheada que cresceu tendo uma relação bem difícil com os seus fios enroladinhos.

Então vamos voltar por onde começamos, pentear o cabelo. Acho que essa tarefa me dava tanta preguiça e dor que foi ali que minha relação com as madeixas desandou. Depois disso, as coisas só se tornaram mais complicadas.

A verdade é que eu não costumava ficar muito com o cabelo solto, pelo contrário, geralmente usava um rabo-de-cavalo tão apertado, tentando conter os cachinhos da parte de cima, que minha cabeça doía. E o motivo de eu nunca soltar o cabelo era que eu sempre ouvia a mesma coisa: risadas ou o tão recorrente “descabelada”. Às vezes tinha a sorte de ser um combo dos dois. Engraçado que agora eu não consigo lembrar de muitas situações específicas, mas eu sei que aconteceram e eu lembro de me sentir mal com isso.

De um desses momentos eu me recordo bem, porém. Foi na primeira ou na segunda série e era dia de tirar foto, por isso todos os alunos iam se vestir de italianos (sabe-se lá o motivo). A roupa das meninas era um vestido rosa e um chapeuzinho que ia na cabeça. Eu tinha a sorte de meu nome começar com S e ser uma das últimas a tirar a foto, mas eu lembro que fiquei o tempo todo pensando no que iam fazer com o meu cabelo (ansiosa desde sempre). A professora soltou meu rabo-de-cavalo (senti aquele alívio indescritível) e tentou colocar o chapéu na minha cabeça, mas, claro, por causa do volume dos meus cachos, não coube. Ela tentou, tentou, tentou e todos estavam me olhando, umas risadinhas ali e aqui, e eu estava me sentindo como uma alienígena. No final, ela conseguiu colocar de um jeito que não ficou tão ruim, mas eu não podia nem suspirar que o chapéu cairia. A foto ainda tá na sala dos meus pais até hoje e eu nem pareço tão angustiada quanto estava me sentindo naquele momento.

Tiveram outras situações. Lembro de uns flashs de ir com cabelo solto para escola ou para rua e ouvir risadas, ser chamada de descabelada. Acho que a parte mais triste disso é que eu realmente acreditava nessas coisas. Eu tinha acabado de pentear o meu cabelo, mas no momento que ele secava e ficava mais volumoso, eu acreditava que era uma descabelada, que era feio e precisava prender. Isso sem contar que eu sempre achava que ficar com o cabelo solto ia me fazer parecer suja ou todos acharem que eu tinha piolhos. Uma garotinha e seu próprio cabelo sendo impedidos de ter uma boa relação pelo tanto de coisa que ela ouvia e via todo dia.

Claro que a falta de representação não ajudava em nada. Cachos não eram algo que estava exposto por aí, porque, assim como as coleguinhas lisas que nem sabiam o poder das suas palavras, a mídia e a sociedade não achavam que meus cachos fossem algo normal. E por isso eu não quis mais tê-los.

A verdade é que alisar meu cabelo não foi uma decisão totalmente consciente, foi algo meio “natural”. Quer dizer, eu, como maioria das garotas não-brancas vivendo em nossa sociedade, queria ser loira, lisa, olhos claros e pele branca, mas eu não lembro de estar ansiosa para me desfazer dos cachos. Por mais difícil que fosse, meus cachos eram meus e tínhamos uma conexão. Mas enfim, aquele passo parecia natural, então eu alisei. Relaxamento, selagem e só deus sabe mais o quê, porque, na real, nem eu entendia o que tava acontecendo, mas só a memória de ficar horas sentada num salão de beleza me dá arrepios. Sim, hoje eu odeio ir em salões e fujo sempre que possível.

Todas as químicas que estavam rolando no topo da minha cabeça finalmente fizeram um estrago horrível e durante o primeiro ano do Ensino Médio o meu cabelo estava uma coisa estranha. Eu prendia em um rabo-de-cavalo e as pontas ficavam todas secas e esquisitas, eu nem sei explicar. Pra sair dessa enrascada eu precisei fazer um tratamento de hidratação semanal por uns meses; o engraçado é que nessas hidratações, sempre rolava a chapinha no final. Por que, se você não disser que não quer, sempre tem que rolar a chapinha ou a escova no final? Quando sua cabeleireira é branca, claro (o que sempre foi o caso para mim). Enfim, meu cabelo melhorou. Os cachos não eram mais os mesmos, mas ainda estavam lá (eles estavam lá mesmo quando alisados, porque nunca ficava liso por muito tempo).

Um dia eu comecei a sentir falta dos meus enroladinhos. Eu nem sei dizer exatamente quando ou como isso aconteceu, mas falei para minha mãe que não queria mais alisar, então, sempre que eu ia na cabeleireira, ela avisava para deixarem cacheado mesmo. Demorou um bom tempo para toda a parte com química ir embora, mas valeu a pena. Isso aconteceu em algum momento de 2011, talvez 2010, e, infelizmente, não tinham muitas outras mulheres deixando o cabelo natural, então, sim, eu recebia muitos olhares e sempre me sentia desajustada. Devo até ter ouvido novamente o bom e velho “descabelada”, mas não guardei na memória.

Só consegui me sentir bem com o meu cabelo durante a faculdade. O campus de uma universidade pública é um lugar libertador, sabe? Era legal poder andar com o meu cabelo solto e não ser olhada ou criticada. Na verdade, tive que aprender a ouvir elogios e entender que meu cabelo era belo como ele era. E aí nossa relação (minha e do meu cabelo) melhorou. Eu acordava e – como durmo com ele solto – ele estava todo exaltado, como sempre, mas eu não me sentia mal por isso, não ia correndo prender ou molhar (apesar dessa ainda ser minha reação quando alguém me vê pela manhã, preciso melhorar). Aprendi que o meu cabelo não se comportava como um cabelo liso e nem precisava fazer isso para ser lindo como ele era.

Começar a aceitar o seu cabelo é um processo cheio de insegurança, porque na sua cabeça você ainda ouve os “descabelada”, “penteia esse cabelo” ou “que coisa feia”. Você pode amar o seu cabelo, mas ainda fala para sua amiga que está com você se “tá muito feio?” ou “me avisa quando tiver muito armado, tá?”. Você não tá acostumada a deixar ele livre, porque você não está acostumada com isso também. Ser livre. E, no final das contas, é tudo sobre liberdade, não é? Se libertar dos estereótipos que te acorrentaram, dos comentários que te oprimiram, dos sentimentos que te diminuíram. Aceitar, amar e deixar os seus cachos serem eles é um ato não só de aceitação, como também de revolução, porque você está gritando “SAI” bem alto para todo um sistema que quer te empurrar um “NÃO”.

Eu nem sei o motivo de eu estar escrevendo isso, mas é algo que eu sempre quis colocar para fora e é muito bom poder fazer isso nos tempos de hoje. Por causa da internet o assunto se abrangeu mais e, inclusive, muitas mulheres hoje em dia estão passando pela transição de deixar o cabelo natural. Meu coração se enche de alegria ao olhar em volta e ver todas as mulheres negras que conheço deixando seus cabelos cacheados ou crespos respirarem; o dobro do sentimento vem quando vejo uma menina pequena com seus cachinhos livres e soltos. Fico feliz por hoje as coisas estarem um pouquinho melhores quanto a esse assunto (embora a gente saiba que ainda tem  muuuuuito o que melhorar, e não só nesse quesito).

Bom, esse foi um texto de mais de mil palavras sobre cabelo. Mas é mesmo só sobre cabelo? Você e eu sabemos que não.

Vou casualmente deixar esse vídeo aqui, porque muito belo.

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2 comentários sobre “SOBRE UMA GAROTA DESCABELADA

  1. Sandra L. C. Reis 5 de março de 2017 / 3:20

    Adorei o texto! Parabéns! Sensível!
    Muito bem escrito, e nos faz refletir sobre esta sociedade que dita padrões e sobre como as pessoas sofrem por estarem fora deste padrão!
    E como há preconceito quando não há aceitação das diferenças!
    Somos todos lindos! Cachos , lisos, etc

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