SOBRE DIVERSIDADE NA LITERATURA

Eu fiquei em dúvida se escrevia esse texto ou não, afinal, esse parece um assunto tão batido que qualquer coisa que eu disser, mil outros já disseram até melhor. Mas, então, por que estou aqui escrevendo isso? Bem, diversidade é um assunto tão importante que deveria ser repetido mil vezes, de milhares de formas diferentes; assim, quem sabe, as coisas não vão melhorando.

Vou ser um pouco mais específica e falar um pouco sobre diversidade na literatura (o que pode ser interessante tanto pra leitores, quanto pra outros escritores); não só sobre personagens diversos, mas sobre a importância de ter vozes diversas produzindo histórias. Gostou? Então vamos lá!

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Se você teve interesse de vir até aqui, vou supor que não faz parte da fatia da população que gosta de propagar o discurso “ah, é só um livro” ou “meu deus, quanto mimimi”. Se você pensa assim, então esse texto com certeza não é pra você, até porque meu propósito aqui não é mudar sua ideia em relação a isso (e, acredite, você devia desconstruir esse pensamento). Ficção é representação do real, é discurso e afeta identidades. Se quiser ler mais sobre o assunto, então dá uma conferida nesse texto aqui e nas dicas de leitura que ele traz.

O ponto que eu vou tocar é mais voltado para livros – apesar de sabermos como séries, filmes, e outros milhares de representações também podem levantar essa mesma discussão. Vamos conversar um pouquinho sobre como é importante ler e criar diversidade nas obras literárias.

O ANO É 2017 E NÃO DÁ MAIS PRA ENGOLIR FALTA DE DIVERSIDADE

Vamos começar da parte mais simples: cansamos do padrão imposto pela sociedade! Quer dizer, não foi algo que aconteceu hoje ou ontem, já faz um bom tempo que isso vem sido empurrado pra gente e cansa cada vez mais se ver rodeado desses padrões. E se isso já é uma droga no dia a dia, imagina ter que aguentar isso na ficção, um lugar que muitas vezes é nosso refúgio.

Bem, como eu já disse, não é novidade pra ninguém o quanto pode ser horrível a gente não se ver representado nas coisas que consumimos e o quanto isso pode mexer bastante com a forma que nos enxergamos. Eu falei um pouco aqui sobre minha relação com o meu cabelo, e eu acho que poderia até ter sofrido menos com essas inseguranças se tivesse encontrado representações que me contemplassem dentro da ficção (falei um pouco sobre isso no Pavê também). Citei essa minha relação com o cabelo (e, indiretamente, com minha etnia), mas poderia falar também, por exemplo, sobre o fato de ser gorda boa parte da minha vida e ter tão pouca representação positiva sobre isso.

São muitos os casos de falta de representatividade, o que é profundamente irritante, afinal, por que em um mundo tão diverso como o nosso, temos que aguentar livros que só trazem personagens Padrão™? A resposta é: não temos e precisamos dizer isso bem alto!

E isso vem sido feito cada vez mais. Não é difícil esbarrar em textos sobre o assunto ou ver pessoas falando sobre como queremos representatividade nos filmes, séries e livros. A internet abriu mais a porta pra essa discussão e podemos até perceber que esses pedidos estão, algumas vezes, sendo ouvidos. Mas pra cada pessoa pedindo representações mais diversas, temos um bocado de gente da gangue do “é tudo mimimi”, o que torna tudo mais difícil e frustrante.

Então, não vamos nos calar. Não vamos aceitar. Vamos reclamar sim de histórias só com brancos, só com héteros, etc. Vamos deixar claro que cansamos de não ver representações que caibam dentro da nossa realidade, porque manter o padrão dentro da literatura, um meio que pode e deve promover reflexão e mudanças, é reforçar cada vez mais o padrão social.

Ah, e mais uma coisinha: Algumas vezes não encontramos essa literatura mais diversa do jeito mais fácil, mas isso não quer dizer que elas não tão por aí. Talvez você não encontre livros sobre certas minorias nas estantes da livraria, mas dá uma caçada (principalmente na internet e em autores independentes) que você vai acabar achando alguma coisa ou outra. Se não achar e tiver vontade de escrever sobre, se joga!!! O mundo tá sempre precisando de histórias com boas representações diversas.

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gif de wunderboy

E falando sobre boa representação…

CRIE DIVERSIDADE PELA IMPORTÂNCIA E NÃO PORQUE VENDE

Com o aumento do pedido por mais diversidade, a representatividade até que vem crescendo (vide a nova Malhação – Viva a Diferença), o que é uma coisa boa. Certo? Hm, depende.

Por causa dessa procura por diversidade, algumas pessoas (ou empresas) acabaram pensando que essa é a receita pro sucesso e decidiram jogar uns aspectos de representatividade em suas obras. Bom, vamos continuar no foco “livro”. Não é tão raro assim você ver autores por aí querendo enfiar personagens de minorias oprimidas em suas histórias só para agradar e chamar a atenção de mais leitores. Isso não seria um problema se essas pessoas tivessem motivadas não só pela visibilidade que o trabalho pode receber, mas também pela importância real de ter uma boa representação diversa em sua obra.

Uma coisa aqui precisa ficar bem clara: ser minoria não é moda, é realidade. Sofrer opressão dos mais diversos tipos é algo presente na vivência de várias dessas minorias e querer representá-las só porque ~diversidade tá na moda~, ignorando completamente o que isso significa para essas pessoas, é, no mínimo, insensato. Quando você não se importa realmente e só tá buscando mais leitores, existe uma chance enoooooorme de você acabar criando uma representação ruim.

Eu, particularmente, sou de opinião que representações ruins podem ser até mais nocivas do que representação nenhuma, e tem vezes que vejo coisas que preferia que nem estivessem lá. Claro, isso não é unânime, é apenas o que eu acho sobre o assunto, mas acredito que todos que buscam representação querem boas representações, e a melhor forma de criar boas representações é se importando com elas, pesquisando, buscando leitores sensíveis, etc.

Então, se você quer ter representatividade em suas histórias, faça isso por realmente querer contar a visão da minoria que escolheu, de dar voz e espaço para uma representação marginalizada, e não apenas pra conseguir mais atenção.

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gif de firelordizumis

REPRESENTATIVIDADE TAMBÉM NA CRIAÇÃO

Antes de começar a falar sobre esse tema, eu queria dizer que ninguém é obrigado a escrever sobre o que não quer! Somos todos livres pra criar nossos enredos, nossos mundos e nossos personagens como bem entendemos. Você ser parte de uma minoria não te obriga a criar histórias sobre isso; e mesmo não sendo parte de uma minoria, você pode sim escrever histórias diversas. Volto pra essa questão mais pra frente, agora vamos ao ponto.

Parte do motivo de não vermos tanta representatividade nas coisas que consumimos é porque não existe tanta diversidade nas pessoas que as produzem, o que é muito importante que aconteça. É fácil pra pessoas que não fazem parte de certo grupo ignorar o que se passa com outros grupos e acabar contando apenas as histórias que são mais próximas delas (ou contando de uma visão distorcida a história de outros). Bem, se a gente tiver mais diversidade nas produções e criações, vamos acabar tendo um leque maior e melhor de representatividade.

Quando tiver procurando alguma leitura diversa, por que não procurar também autores diversos? Ouvir a história que eles têm para contar sobre suas vivências? As histórias dessas pessoas geralmente têm um toque mais sensível e fazem você realmente experimentar ou compreender o que é a realidade daquela minoria representada. E é por esse motivo que precisamos sim procurar mais autores diversos!

Isso é algo que hoje em dia tá melhorando. Na gringolândia até vemos agentes e editoras procurando por trabalhos #OwnVoice (que quer dizer “voz própria”; essa foi uma hashtag levantada pela autora Corinne Duyvis há alguns anos, procurando achar recomendações de livros escritos por autores que escrevem sobre o mesmo grupo diverso de que fazem parte). Acho que é muito importante a gente refletir nos autores que estamos consumindo, olhar pras nossas estantes ou pro mercado editorial e ver se temos nas listas de autores a mesma diversidade que queremos nas histórias (spoiler: não temos, rs).

Autores negros, asiáticos, parte da comunidade LGBT+, entre mil outros grupos diversos, são ainda bastante marginalizados, especialmente quando escrevem sobre sua própria realidade. E ainda existe essa ideia de que representatividade é uma cota, então podemos até ter uma ou outra história diversa e autores diversos por ali, mas não podemos exagerar, né, rs? Afinal, as únicas histórias que podem ter em baldes são aquelas sobre pessoas héteros, brancas, cis, neuronormativas, etc. [rs intensifies]

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gif de eizaagonzalez

Enfim, é importante a gente procurar, divulgar e ler autores que sejam parte de minorias, porque essas são pessoas que nem sempre conseguem ocupar um espaço dentro do mercado e que merecem muito terem suas vozes ouvidas.

Mas, como eu disse antes, isso não quer dizer que todo autor que faz parte de uma minoria precisa necessariamente escrever sobre essa vivência. E, se você quiser escrever uma história diversa, você tem todo o direito de fazer isso. Na verdade, até aconselho, afinal, se tem uma coisa que a gente não precisa é de mais personagens Padrão™, rs. PORÉM, como também já disse antes, tome aquele famoso cuidado e busque sempre pesquisar mais sobre aquilo que quer representar, procure amigos e colegas (ou até desconhecidos) pra ler o que você escreveu e te dizer se sua representação tá ok ou precisa dar aquela melhorada. Respeite a voz de quem você quer representar.

Bom, esse texto ficou bem maior do que imaginei que ficaria, mas acho que falei tudo que precisava sobre o assunto. Espero que tenha tocado o coraçãozinho de vocês com o que disse aqui e que você – como escritor ou leitor – tenha mais atenção e cuidado com as representatividades que encontra ou cria no seu caminho. E lembre-se de sempre pedir e buscar por mais livros diversos, porque precisamos e muito!

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