Sobre escrever e ler histórias de amor

Um dia desses eu estava conversando com algumas amigas sobre como é difícil escrever histórias de amor. O assunto acabou rendendo um áudio enorme (eu amo áudios e vou defendê-los) comentando sobre pontos importantes em histórias de amor que tornam o processo de criação complicado. No fim, acabei achando que ia ser legal vir aqui refletir um pouco com vocês sobre esse tipo de ficção que eu tanto adoro.

É uma verdade universalmente conhecida que histórias com foco em romances são sempre vistas como algo inferior. Eu não sei você, mas eu mesma carreguei esse preconceito internalizado por muito tempo, alimentado por todos os discursos que insistem em minimizar narrativas que celebram casais e os seus amores. O engraçado é que eu sempre adorei essas histórias e minha lista de comédias românticas assistidas nunca foi pequena, mas a ideia de pegar um livro sobre pessoas se apaixonando para ler parecia sem sentido para mim. Era só eu ver a capa de um romance de banca, que eu fugia para o outro lado!

A questão é que eu, por muito tempo, achei que deveria ler apenas livros renomados para ser considerada uma leitora. Isso quando eu era adolescente e pretensiosa, achando o máximo andar por aí gritando a palavra de Victor Hugo (eu ainda faço isso, na real, mas eu juro que melhorei hahaha). Acho que por isso demorei tanto tempo para começar a ler histórias de amor (e qualquer outra literatura mais comercial). Quando eu finalmente me entreguei aos dessas ficções gracinhas, eu senti meu coração explodir de felicidade. 

Acho que eu passei tanto tempo não lendo esse tipo de livro (repare que tô fazendo uns malabarismos para não usar o termo chick-lit, porque ele me incomoda bastante, como já disse aqui) que quando eu comecei a ler mais histórias de amor, eu me joguei de cabeça nesse buraco e agora a cada 10 livros que eu leio, 11 são romancinhos (o diminutivo aqui não é nada pejorativo, juro). E nessa eu também acabei descobrindo que escrever histórias assim me faria muito feliz.

Bom, na verdade, se alguém for remexer nos cadernos com as histórias que escrevi durante o Ensino Fundamental e que guardo num baú na casa dos meus pais, vai logo perceber que todas elas têm um romance como centro. Em algum momento da minha vida eu decidi que não queria mais escrever sobre aquilo (provavelmente na mesma época pretensiosa que citei antes), então reencontrar no meu coração o quanto escrever pessoas se apaixonando me faz bem foi todo UM PROCESSO. E esse afastamento só aconteceu, para começo de conversa, porque muita gente parece acreditar nessa ideia de que histórias de amor são bobas, e eu me deixei acreditar nisso também.

Uma das questões que sempre levantam é como esses costumam ser livros que não servem pra nada e muitas vezes são problemático. Sobre a primeira parte eu nem vou discutir, porque isso muitas vezes é dito sobre diversas outras ficções e eu precisaria de um texto só para falar sobre essa questão (e muita energia, o que eu nem sei se terei um dia). Mas sobre ter muitos problemas em livros com temáticas românticas: sim, é verdade. Nessa jornada de me jogar nos romancinhos, eu bati a cabeça em cada parede que tinha horas que vinha um desânimo sem fim. Porém, existem coisas problemáticas em outros tipo de histórias também. E você pode sempre ler resenhas e procurar listas com indicações que atendam mais ao que você procura (e que passem bem longe de relacionamentos abusivos romantizados, rs). Dependendo da sua necessidade, você vai precisar caçar um pouco (como em qualquer outro lugar, existe uma presença muito forte de uma narrativa branca, hétero, cis etc), mas é sempre possível encontrar coisas boas por aí. A questão é que eu não vejo sentido nessa afirmação categórica de que TODOS os livros centrados em romances são problemáticos. Vamos com calma, né, não?

Parte dessa ideia de acharem histórias de amor romântico ruim vem do fato de que existem pessoas que acreditam que autores (principalmente autoras mulheres) desses romances fazem tudo de qualquer jeito, jogam uns clichês e pronto, habemus livro com um romancinho fofo! Exceto que não é assim que acontece. 

Escrever uma narrativa focada no romance entre os seus personagens é tão complexo e dá tanto trabalho quanto escrever qualquer outro tipo de ficção. Os elementos de uma boa história de amor são pensados e colocados em um livro nos momentos certos. Não é fazendo tudo de qualquer jeito que você consegue construir um bom desenvolvimento romântico entre seus protagonistas. Quando o relacionamento amoroso entre pessoas é o enredo principal da sua história, você precisa pensar em como vai fazer isso funcionar, não só dentro da própria narrativa – desenvolvendo a relação das personagens da melhor forma possível –, como também para o seu leitor, que precisa caminhar junto com o seu casal e se envolver com eles ao mesmo tem em que eles se envolvem entre si.

Quando eu tô escrevendo, preciso pensar em como os diálogos vão funcionar para tornar meus personagens mais próximos, quais cenas eu preciso encaixar para fazer o romance entre eles funcionar, quantos momentos juntos meus protagonistas vão precisar para história de amor entre eles ser convincente. Escrever é sempre pensar em como cada pedacinha vai funcionar como engrenagem ao fazer sua história ir para frente, e não é diferente quando estamos falando de romancinhos fofos e gracinhas que muitas vezes são tidos como “água com açúcar”. Acredite, saber a medida certa de açúcar que você precisa colocar na sua água, faz toda a diferença. 

Autores que escrevem nessa temática precisam ler e estudar como qualquer outro autor. Inclusive, lendo livros não só do mesmo gênero. É muito fácil acreditar no mito de que escrever histórias de amor não dá trabalho, ignorando todo o tempo que um escritor precisa quebrar a cabeça para fazer seu enredo funcionar. Escritores de histórias de amor não são menos escritores, e justificar seu preconceito diminuindo o trabalho de um profissional é uma atitude péssima.

Enfim, vou terminar pedindo de coração para que vocês desapeguem desse tipo de pensamento. Tudo bem você não gostar de ler histórias desse tipo, ninguém precisa se forçar a adorar o que não te agrada, mas não é nada ok você justificar seu gosto dizendo que todos os livros com romance são péssimos. Livra sua mente dessas ideias, porque carregar preconceito com a gente nunca é algo bom.

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