Sobre consumir mais produções não brancas

Em 2018 pode ter acontecido de você ter me indicado algum filme ou série com protagonistas brancos e eu ter dito “Nossa, que legal! Assisto no ano que vem” (e se eu não falei em voz alta, eu com certeza pensei). Eu juro que não estou duvidando do seu gosto ou menosprezando sua dica, mas é que durante esse ano eu decidi consumir majoritariamente produções não brancas.

Acho que preciso começar dizendo que, junto com os meus pais, ficção foi o terceiro alicerce na minha criação. Pode parecer exagerado, mas hoje eu consigo perceber claramente o quanto tudo que eu consumi foi criando, aos poucos, a minha personalidade e a pessoa que sou hoje (um grande abraço para Sol adolescente que se esforçava bastante para manter um humor que orgulhasse Seth Cohen e Veronica Mars). Filmes, séries e livros sempre foram bastante presentes na minha vida, e da mesma forma que eu consigo ver as coisas positivas que isso me gerou, eu não posso ignorar os pontos negativos que deixam marcas até hoje.

Todos esses produtos que eu consumia eram protagonizados por personagens brancos. Eu, na verdade, consigo pensar em pouquíssimas coisas que me rodeavam que não seguiam essa regra. As mocinhas nas séries que eu amava – e quem eu queria ser quando crescesse – eram brancas, muitas vezes loiras e sempre com cabelo liso. Os mocinhos apaixonantes eram sempre homens brancos e dentro de todos os padrões possíveis. Quase nunca tinham personagens negros ou asiáticos em destaque. Às vezes um melhor amigo ou um coadjuvante que não durava muito nas tramas. Isso quando não tinham representações nocivas de personagens não brancos.

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“Não é meio, é extremamente racista.”

E isso nem acontecia só porque eu consumia muitas narrativas estadunidense (o que ainda é real até hoje)! Quando era mais nova, como boa parte das pessoas desse país, eu adorava assistir novelas. Sentava com a minha mãe no sofá e via todas, de Malhação até a novela das nove. Eu me divertia com muitas delas, tinha minhas favoritas e ficava investida no desenvolvimento dos personagens. Mas, mesmo estando num país em que mais da metade da população é negra, nunca existiu muito espaço para personagens que não fossem brancos dentro dessas narrativas. O triste é que eu nem posso dizer que hoje em dia melhorou muita coisa.

Assim, eu continuava consumindo mais e mais produtos sem uma representação que eu pudesse me enxergar. Deixando que um discurso velado, de que pessoas não brancas não mereciam estar naqueles espaços, entrasse em mim. Permitindo que essas narrativas, como disse antes, tivessem participação intensa na minha construção como ser humano. Claro que eu não posso jogar toda a culpa na mídia que eu consumia, mas acredito que boa parte da minha vontade de ser mais clara (mesmo não tendo uma pele retinta), de ter cabelo liso e loiro, da tristeza de não ter nascido com os mesmos olhos verdes da minha mãe, foi cada vez mais alimentada pelo tipo de coisas que eu assistia e lia.

Foram pequenas marcas que se acumularam com o tempo, me fazendo perceber que nessas histórias existia uma regra para o que era ou não aceitável e bonito. Pequenas marcas que pautaram meus gostos, meus pensamentos e a forma como eu me via. Pequenas marcas que volta e meia se fazem presentes, embora eu nem soubesse que elas estivessem ali, escondidas em um cantinho que eu ainda não tinha olhado enquanto me desconstruía e me reerguia.

Então, em 2018 eu decidi consumir majoritariamente produções não brancas. Claro que eu já venho consumindo mais e mais nos últimos anos, mas o meu objetivo está sendo não só me aproximar dessas narrativas, como também me afastar de narrativas brancas. A ideia, inclusive, surgiu por causa de um tweet da Duds dizendo que estava exausta e que ia começar esse projeto de só ver filmes com protagonismo não brancos. Eu me empolguei e me joguei nessa, expandindo isso para minhas séries e meus livros.

No geral, eu não ando lendo ou assistindo muita coisa (essa é uma conversa para outro momento), mas tudo que eu tenho consumido esse ano está me dando mais uns 10 de vida.

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gif de dailygrownish

Eu abandonei todas as séries que só tinham protagonistas brancos (isso nem foi um processo difícil, a maioria eu já queria largar e eu nem sinto falta de nenhuma, para ser bem sincera). Teve temporada nova de Dear White People, que voltou para nos abençoar. Assisti e adotei todos os personagens em On My Block. Fiquei loucamente animada com a chegada de Grown-ish no mundo. E segui apaixonada pela delícia que é a melhor série teen da Disney, Andi Mack.

Nos livros eu fui agraciada por romances filipinos (sempre querendo trazer mais e mais pessoas para essa vício comigo) e várias histórias de amor com protagonistas negras que vejo nas indicações da conta WOCInRomance.  Teve Confissões, da Kanae Minato, que já abriu o ano me deixando chocada de novo e de novo em cada capítulo. Li e adorei ver o relato de Lázaro Ramos no livro Na minha pele. Fiquei completamente encantada e impactada com o audiolivro de The Poet X, da Elizabeth Acevedo. Isso sem contar a felicidade de ver o conto A rota que me levou a você, uma história fofinha escrita pela minha amiga, Lorrane Fortunato, vir ao mundo (e ainda de quebra com essa capa lindíssima da Larissa Usuki).

De filme, eu aproveitei várias comédias românticas, como Voando para o amor (2013) e Vencendo o passado (2016). Morri um pouco com o drama romântico fofo e engraçado de Livrando a cara (2004). Teve histórias adolescentes fofinhas na Netflix, como Doce argumento (2018) e Para todos os garotos que já amei (2018).  Dei umas boas risadas e tive que limpar o cantinho do olho com Today’s special (2009). Não faltou aquelas animações que fazem a  gente sofrer, como Crianças lobo (2012). E não posso deixar de falar de um dos meus filmes favoritos desse ano até o momento, o longa tailandês sobre colar em provas, Gênios do mal (2017).

E isso foi só até o meio de 2018. Metade de um ano e eu já sinto o quanto esse projeto foi me ajudando a encarar algumas das marcas que eu falei antes. Metade de um ano e eu sinto que me amo e me aceito um pouco mais. Metade de um ano e eu já não aguento e me irrito quando bato o olho em produções que só têm personagens brancos. E acho que essa é uma consequência natural da decisão que tomei no começo de 2018.

A ideia começou com o objetivo sendo passar um ano me afastando de narrativas que só tenham protagonismo branco, mas, depois de doze meses nisso, como eu vou aceitar me emergir de novo em séries, filmes e livros que não me vejo e não vejo meus amigos? Não me parece muito possível. E, sabe, eu gostaria que mais pessoas tivessem esse tipo de experiência e deixassem de consumir alguns conteúdos em que só se vê brancos. Pessoas que não necessariamente vão sentir na alma como eu estou sentindo essa troca de ares, mas que fariam toda a diferença se fossem mais seletivos com aquilo que consomem. Porque não é como se essas narrativas não existissem antes de eu ir buscar por elas, elas só não são tão divulgadas e adoradas como as produções convencionais brancas, e pode fazer toda a diferença você se esforçar para ir atrás de outros conteúdos e se cercar de narrativas mais diversas.

 

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